
Primeiro, com permanente preguiça, penso se tratar de um
sonho. Devo estar em Twin Peaks a exatos 700 zilhões de quilômetros luz da
Terra, em busca do assassino de Laura Palmer, que eu aposto que ninguém em sã
consciência solucionaria esse mistério, quando escuto um barulho nas grades da
minha janela.
Com o gosto amargo do despertar sobre os lábios, continuo
com os olhos fechados. Tenho a esperança de que seja algo banal, e que logo vai
passar. Assim como os meteoros, onde poucos parecem notar.
Mas como tantas outras coisas na vida, acabei por me
enganar. O pássaro continuava fazendo um barulho estranho. Tive a nítida
impressão de que queria falar.
Derrotado, abri os olhos. Nem cheguei a comemorar a marca de
sete mil novecentos e oitenta e nove dias de vida. Parecia algo irrelevante, até
que eu desse conta de que do tempo ninguém sai incólume.
Quando cheguei ao batente da janela, vejo o corvo colocar os
olhos sobre mim e dizer algo baixinho, no qual, eu tenho certeza absoluta se
tratar de palavras da língua portuguesa.
Fico com medo de me aproximar para ouvir sobre o que ele
fala. Porém, a curiosidade fala mais alto. Me aproximo, seus olhos se
arregalam. Sinto uma afronta, um combate. Vejo medo nos seus olhos também. Sou
rápido! Agarro seu pescoço e começo a apertá-lo, o corpo rígido e cheio de penas começa a
chacoalhar, lutando pela vida. Os movimentos rápidos e constantes sugerem que
algo está próximo de entrar em ebulição. Algumas penas se desprender e caem
lentamente no chão. Assim como a vida do corvo, que a cada segundo parece
desaparecer.
Tic-tac, o tempo passa. Os movimentos ficam mais lentos. A
luta parece chegar ao fim.
Com lágrimas nos olhos, eu fraquejo os punhos, largo o
corvo, que ainda parece estar vivo, contudo sem forças para reagir. Sento no chão,
lágrimas escorrem do meu rosto. Eu o odeio por isso! Eu sinto pena dessa
marionete com bico de pássaro e penas tão negras e fétidas quanto as de um
Urubu.
Deliro, estou num sonho tão louco e abstrato que nem consigo
pensar onde estou. Apesar de que, nesse sonho/pesadelo posso estar num país na
qual não existe corrupção generalizada, tão pouco idealistas e radicais.
Volto à realidade e olho o relógio. Não tenho tempo para...
Sonhar!
O tic-tac ensurdecedor não para nem um segundo. Por alguns
instantes fico hipnotizado, até ouvir o corvo gritar:
- Egoísta! Egoísta! Egoísta!!
Olho para a janela e não vejo ninguém. Olho para as minhas mãos
e vejo penas, e sangue escorrendo entre os meus dedos. O corpo do corvo imóvel
no chão.
A voz da morte sussurra em meus ouvidos e me convida para
dormir!
FIM
Imagem: Cena de Twin Peaks.